terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Ai de quem não rasga o coração...

Quando eu morrer, não quero choro nem vela
Quero uma fita amarela
Gravada com o nome dela

A onda de nostalgia do Brasil foi desencadeada pelo Cabaré da Santa. E ontem o Poeta da Vila soprou-me ao ouvido um dos seus sambas despertando aquele amor adormecido que um dia, por casualidade, se encontra na rua. Aquele que me diz que o meu caminho é outro e que tenho de ser mais honesta comigo.

Estou tristemente na peça errada, a interpretar uma personagem que não é. Preciso de ser linda outra vez, com estrelas no cabelo e sol no coração. O desejo tem de vencer o medo.

Como dizia o poeta
Quem já passou por essa vida e não viveu
Pode ser mais, mas sabe menos do que eu
Porque a vida só se dá pra quem se deu
Pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Dia do Amor

Já que precisamos de um dia do amor, para não nos esquecermos dele... Muitos oferecem perfumes, peluches piegas, jantares à luz de velas... eu gosto de oferecer poemas. Aqui vão dois que escrevi em momentos mágicos. Para que a magia regresse e inunde tudo e todos...


Arcaico Desejo
Entre a folhagem
emerge o sangue
nos cabelos
nariz
lábios
vulva

início e fim
impulso e paciência
na dança
lenta
lânguida

passos desnudos
e o branco
aquele fiel perverso
livre do tempo

As mãos vivem
a doce
violência
da paixão

Os olhos iluminam-se
ao sabor
do vinho
antigo

A escuridão vital
impõe-se
e as janelas
abrem-se
de par em par.


(Rio 2001, inspirado no belo filme "Lavoura Arcaica")Itálico


Eclipse de Sangues

Num espaço
compartido
partilhado
?
encantado

organismos vivos
teorias poesias
assentam
na mesa

Os sete sóis
e
as sete luas
cruzam-se
com a forma redonda

desde sempre
e
para sempre

No horizonte
um pôr do sol vertical
um infinito molecular
de palavras mudas
desaprendidas
num universo sem nome

Sem palavras
Oxalá!
Poemas teoremas
Vivências
Cadências
estrelas em mim
se apagam

e a cor do teu sangue
anoitece no calor do meu.

(Lisboa 2005, no café onde Pessoa passou muitas tardes)

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

A Vintena Vadia está a apresentar: Boca na Terra!

Era uma vez um velho casal de lavradores, um pescador, uma mulher, uma madrasta, uma velha avarenta, que vivia numa pequena aldeia e tinha uma filha, que tinha três filhas, que tinha muitos filhos. A mãe morreu e o pai, passado algum tempo, quis casar-se com a rapariga mais bonita da aldeia. A filha estava para casar e na véspera do casamento os pais deram um jantar ao noivo. Logo que se casaram a mulher começou a tratar mal a filha.

Após noites geladas de ensaios no Museu do Carro Eléctrico, o nosso espectáculo está a querer dar uns ares da sua graça... não é ainda o espectáculo final, é o "Work in Progress", e pretende despertar a curiosidade e a imaginação do público para estar presente na sua estreia a 5 de Março no Museu do Carro Eléctrico.
Por agora, vamos apresentar, por sorte, na Sexta Feira 13 e no Sábado Amoroso 14 de Fevereiro, no Contagiarte. Venham lá espreitar!

domingo, 1 de fevereiro de 2009

A máquina da felicidade

De partida. Já há algum tempo que estou de partida. Tudo dentro da mesma cidade, apenas em espaços e com pessoas diferentes. Esta questão sempre me acompanhou, sempre adorei aeroportos que me levassem para fora desta cidade tão castradora e nublada. Nunca me senti muito em casa aqui. E parti: para os trópicos, para as montanhas místicas dos Maias e Azetecas (e muitos mais "-ecas" que desconhecia!), para os Happy and Free States. É mesmo verdade que a vida corre a um outro ritmo no Rio de Janeiro ou em São Francisco. As pessoas divertem-se mais, fazem mais amor (?) e não se riem ou criticam coisas tão mesquinhas como o penteado de alguém ou a combinação de cores das roupas. Mas apesar de ter conhecido seres humanos maravilhosos de vários lugares, estas pessoas valem tanto a pena como algumas pessoas que conheço aqui. Tão cheios de vida e puros são os mexicanos daquele camião em Chiapas como o são os habitantes da aldeia dos meus avós em Oliveira. O estrangeiro da peça não escolheu a banda da aldeia para tocar no festival de "World Music"? Então... tudo depende da perspectiva e daquilo que procuramos. E sobretudo da nossa disposição para encontrar e ver. Já me aconteceram muitas coincidências no Porto! E, para mim, estas magias do quotidiano são os indicadores que a vida está a fluir, que a corrente de energias não está bloqueada, que estou a criar o meu destino. Posso até sair de novo do Porto, partir de novo, a nómada em mim o exige. Mas desta vez não será à procura da máquina da felicidade, porque essa é sempre falível em qualquer parte do mundo. O nevoeiro desta cidade, o fumo acumulado pelas gargalhadas adormecidas atinge muitas outras cidades também. E o labirinto está a crescer nos écrãs a cada dia.
É só muito bom quando chegamos a casa. Seja ela onde for.

sábado, 10 de janeiro de 2009

Em construção

Estou numa casa em construção. Com temperaturas negativas e calor humano positivo. Uma casa que um dia será magnífica, graças ao idealismo em acção de dois homens que, apesar de não darem elogios, valem muito a pena.
Há pessoas que são monumentos antigos em ruínas, com fachadas desoladas e interiores tristes e sombrios. No entanto, se lhes dermos um momento da nossa atenção, podemos imaginar como seriam essas pessoas se, tal como as casas abandonadas, pudessem ser restauradas e os seus alicerces fortes e belos pormenores pudessem ser vistos. Conheço alguém assim, que é belo e gentil na sua essência, mas que precisa de se reconstruir. Talvez precise de ser amado para ter essa motivação. Ou talvez precise de amar e deixar-se amar para passar a prova de fogo. Poucos se lançam no abismo do amor... esse desconhecido, que tem de continuar a ser desconhecido e incerto, que tem de permanecer um risco, um mistério. Senão continuamos na nossa toca, sem conflito, sem nos movermos, no silêncio da nossa voz, a única permitida. O amor é o motor castrado do mundo. O verdadeiro movimento interior que transforma tudo.
Ontem, na aula de dança africana da Eva - essa força da natureza - a energia do amor estava no auge. A todos ela contagiou com a sua alegria e sensualidade. E eu dancei, dancei, cantei e celebrei o melhor de mim com todo o meu corpo em vibração. Foi um orgasmo libertador de todo o meu ser. Algo difícil de exprimir por palavras, algo que os tambores guardam.

À Eva, aos monumentos em ruínas e aos idealistas em acção, que na sua essência estão mais próximos e afinados do que aquilo que - à primeira vista - podemos ver...

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Desejo primeiro que ames...

Alguém, que conheço de Alma, enviou-me este belo poema de Victor Hugo, no qual revejo os meus desejos para todos e para mim:

Desejo primeiro que ames,
e que amando, também sejas amado.
E que se não fores, sejas breve a esquecer
e que esquecendo, não guardes mágoa.

Desejo, pois, que não seja assim,
mas se for, saiba ser sem desesperar.
Desejo também que tenhas amigos,
que mesmo maus e inconsequentes,
sejam corajosos e fiéis,
e que pelo menos num deles
possas confiar sem duvidar.
E porque a vida é assim,
desejo ainda que tenhas inimigos.
nem muitos, nem poucos,
mas na medida exacta para que, algumas vezes,
te interpeles a respeito
das tuas próprias certezas.
E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo,
para que não te sintas demasiado seguro.
Desejo depois que sejas útil,
mas não insubstituível.
E que nos maus momentos,
quando não restar mais nada,
essa utilidade seja suficiente para te manteres em pé.
Desejo ainda que sejas tolerante,
não com os que erram pouco, porque isso é fácil,
mas com os que erram muito e irremediavelmente,
e que fazendo bom uso dessa tolerância,
sirvas de exemplo aos outros.
Desejo que tu, sendo jovem,
não amadureças depressa demais,
e que sendo maduro, não insistas em rejuvenescer
e que sendo velho, não te dediques ao desespero.
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e
é preciso deixar que eles escorram por entre nós.
Desejo por sinal que sejas triste,
não o ano inteiro, mas apenas um dia.
Mas que nesse dia descubras
que o riso diário é bom,
o riso habitual é insosso e o riso constante é insano.
Desejo que descubras,
com o máximo de urgência,
acima e a respeito de tudo, que existem oprimidos,
injustiçados e infelizes, e que estão à tua volta.
Desejo ainda que afagues um gato,
alimentes um cuco e ouças o João-de-barro
erguer triunfante o seu canto matinal
porque, assim, te sentirá bem por nada.
Desejo também que plantes uma semente,
por mais minúscula que seja,
e acompanhes o seu crescimento,
para que saibas de quantas
muitas vidas é feita uma árvore.
Desejo, outrossim, que tenhas dinheiro,
porque é preciso ser prático.
E que pelo menos uma vez por ano
coloques um pouco dele
à tua frente e digas `Isso é meu´,
só para que fique bem claro quem é o dono de quem.
Desejo também que nenhum dos teus afectos morra,
por ele e por ti,
mas que se morrer, possas chorar
sem te lamentares e sofrer sem te culpares.
Desejo por fim que tu, sendo homem,
tenhas uma boa mulher,
e que sendo mulher,
tenhas um bom homem
e que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes,
e quando estiverem exaustos e sorridentes,
ainda haja amor para recomeçar.
E se tudo isso acontecer,
não tenho mais nada para te desejar.