segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Ausências

Ausente de mim
ausente de ti

pente fino nos cabelos
que me transfigura
desconhece
nos cabelos amados
de ébano para mim
simplesmente brancos para ti

Amor, em ti o meu conforto
meu abandono
minhas lágrimas incapazes
minhas ilusões fugazes
minha dor no estômago
meu coração apertado
meu olhar intermitente.

Ausente de ti -
ausente de mim.

Virgínia Silva

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Vou para os bosques

I went to the woods because I wanted to live deliberately,

I wanted to live deep and suck out all the marrow of life,

To put to rout all that was not life and not when I had come to die

Discover that I had not lived.


Henry David Thoreau

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Señorita Extraviada

Esta semana o jornal O Público falou de Cuidad Juarez, no México. Mas não focou o feminicídio que ocorre nesta cidade, que é o desaparecimento em massa - desde os anos 80 que se encontram corpos esventrados no deserto - e a tortura de jovens mulheres, entre os 13 e 25 anos, que são usadas para o que pior pode existir no ser humano. Em memória das jovencitas mexicanas: "Ni una muerta más!"

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Corazón porque no (me) amas...


En el borde de la vida y la muerte
nos vamos bailando la suerte
de este pobre corazón.

(...)
Subí a la sala del crímen, le pregunté al presidente
que si es delito quererte, que me sentencien a muerte
aa aay ¿corazón por qué no amas?

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Pratos ou partos?

PRATOS VOADORES

Violentamente te encontro
em mim, descendo
em ausência
num jardim de Outono

Violentamente deixo
as agressões espelharem

A caligrafia
do teu medo
e de todos os pratos
onde voam dores

Violentamente
sou violada
pela música
do teu corpo

batendo contra o meu

pelo tambor enlouquecido
-que rasga dilacera liberta -

Violentamente
em assonância
aliteração
discrepância
além coração

e uma lua alta é cúmplice
do nosso crime.


PARTO

Estou num pântano
onde as flores de lótus
não vão florir

(algum sangue terá de abrigar esta loucura
algumas luas terão de mostrar o essencial)

enquanto houver palavras que nos ardem
espancam
os bosques são precisos

As luas não vão dizer
o teu nome duas vezes
em surpresa certificada.

Virgínia Silva 
Festival do Ruído, Barcelos, 26/7/2010

terça-feira, 20 de julho de 2010

Ah...Vadinho!



Há personagens que são imortais. Têm tamanha vida que entram nos nossos sonhos, questionam as nossas certezas com a sua presença imponente, dormem connosco e despertam para além de nós. Assim é Vadinho. Nas páginas de Amado ele é ainda mais apaixonante do que no cinema. Vadinho, símbolo das nossas paixões secretas, do humano em estado selvagem, da força do desejo, do sangue indomável acima de qualquer convenção social ou moral. Vadinho vadio, para vadiar, Vadinho malandro, maldito, imoral para todos, Vadinho, o amor de Flor. Um amor puro, de quem ama com todas as imperfeições, um amor desinteressado, pois traz mais dor do que prazer: Como viver sem ele, como atravessar esse deserto, transpor esse crepúsculo, erguer-se desse pântano? Deus e o Diabo acabam por se reconciliar nos braços de Dona Flor. Quem de nós consegue tal proeza?