Chega uma altura na vida de toda a gente em que se medita no significado da palavra coincidência. Se enfrentarmos a questão corajosamente, uma vez que é algo perturbador, somo forçados a admitir que a casualidade não é resposta. Se usarmos a palavra predestinação, sentimo-nos derrotados. E com razão. É só porque o homem nasce livre que estas conjugações misteriosas de tempo, lugar e evento podem acontecer. Nos horóscopos dos homens e das mulheres marcados pelo destino observamos que meros incidentes tornam-se acontecimentos profundamente significativos. Talvez por estes indivíduos conseguirem aperceber-se mais do seu potencial do que os comuns mortais, a correlação entre interior e exterior, micro e macro, é impressionante e clara como a água.
Ao debatermo-nos com o mistério do acaso, talvez sejamos incapazes de encontrar uma explicação adequada, mas é inegável que nos apercebemos das leis que estão para além do entendimento humano. Quanto mais conscientes nos tornamos, mais entendemos haver uma relação entre a vida correta e a boa sorte. Se aprofundarmos a questão o suficiente, apercebemo-nos que a sorte não é boa nem má, que o que interessa é a forma que lidamos com a (boa ou má) sorte. Costuma dizer-se que "contra má sorte, coração forte". Está implícito neste adágio que não somos igualmente favorecidos ou desfavorecidos pelos deuses.
(...)
Todos os dias somos confrontados com provas das interligações vastas e extremamente complexas entre os acontecimentos que comandam as nossas vidas e as forças que regem o universo. O medo que sentimos de questionarmos e seguirmos os lampejos de compreensão que estas provas criam, deve-se ao facto de podermos vir a saber o que nos acontecerá. A única coisa que temos a certeza desde que nascemos é de que morremos. Mas até isso nos é difícil aceitar, apesar de ser garantido.
in O Big Sur e as Laranjas de Jerónimo Bosch, de Henry Miller
segunda-feira, 5 de agosto de 2013
quinta-feira, 1 de agosto de 2013
Deixa-te estar sentado e vê o mundo a passar
A primeira coisa que reparamos quando começamos a examinar algo tão misterioso como a sorte é o facto (e é um facto estupendo) de não haver nem principio nem fim. Tudo está interligado e é uno. Quando juntamos as peças, como num quebra-cabeças, o bom e o mau parecem igualmente o papel da sorte. As ninharias, em particular, assumem uma importância completamente desproporcionada às suas dimensões e peso. Tudo se acerta e num grau que anula as presunções vãs do ego. (... ) Se li as estrelas, não foi para descobrir o que aconteceria amanhã, mas para confirmar o que estava a acontecer agora mesmo.Deixa-te estar sentado e vê o mundo a passar!
Sim, mas como um equilibrista numa corda, não como uma lesma.
in O Big Sur e as Laranjas de Jerónimo Bosch, de Henry Miller
De manhã tive estas palavras inspiradoras como companhia, transformando os meus vinte minutos no metro para a Maia, numa viagem anunciada de cristalizações intemporais.
quarta-feira, 24 de julho de 2013
A verdade na educação
Como é que se ensina as crianças a portarem-se bem? (Como deve ser, obviamente). Assim de repente poderá parecer que há apenas uma resposta: ensinar pelo exemplo.
Mas quem já discutiu o tema sabe que este argumento é a última linha de
defesa. A força do exemplo parece ser considerada uma técnica menor na
estratégia da guerra quotidiana. É a resposta de um santo, não a de um
pai cansado que não sabe o que fazer ou a de um professor. A meio de uma
discussão interminável, de certeza que alguém nos diz que os santos não
tinham filhos e que Jesus, que disse: "Deixai vir a mim as criancinhas,
pois deles é o Reino do Céu", talvez tivesse dito outra coisa se
soubesse o que são os chamados problemas domésticos. Por outras
palavras, Jesus não sabia peva do que estava a dizer.
(...)
- Podemos gritar, ameaçar e castigar- observa ele - mas a verdade é que somos todos únicos, temos uma maneira de ser própria. Não vale a pena dizer "Não faças isto" ou "Não faças aquilo"; é melhor descobrirmos o que o leva a fazer isto e não aquilo. Não podemos forçar as pessoas, especialmente os pequenotes. Só podemos guiá-los. E isso é uma arte!
(...)
Tento transmitir-lhes a ideia de que a ignorância não é pecado. Sugiro até, cuidadosamente, claro, que há perguntas às quais ninguém sabe responder, nem sequer a mamã e Harrydick. Espero desta forma prepará-los para a revelação que certamente terão um dia, de que adquirir conhecimento é como morder um queijo que se torna maior a cada dentada que se dá. Espero também incutir-lhes a ideia que é melhor respondermos nós mesmos a uma pergunta do que pedir a alguém que nos dê a resposta. Mesmo que a nossa resposta esteja errada! Só nos concursos se obtêm as respostas "certas"... mas para que servem?
O abismo entre o conhecimento e a verdade é infinito. Os pais falam muito da verdade, mas raramente se dão ao trabalho de lidar com ela.
in O Big Sur e as Laranjas de Jerónimo Bosch, de Henry Miller
(...)
- Podemos gritar, ameaçar e castigar- observa ele - mas a verdade é que somos todos únicos, temos uma maneira de ser própria. Não vale a pena dizer "Não faças isto" ou "Não faças aquilo"; é melhor descobrirmos o que o leva a fazer isto e não aquilo. Não podemos forçar as pessoas, especialmente os pequenotes. Só podemos guiá-los. E isso é uma arte!
(...)
Tento transmitir-lhes a ideia de que a ignorância não é pecado. Sugiro até, cuidadosamente, claro, que há perguntas às quais ninguém sabe responder, nem sequer a mamã e Harrydick. Espero desta forma prepará-los para a revelação que certamente terão um dia, de que adquirir conhecimento é como morder um queijo que se torna maior a cada dentada que se dá. Espero também incutir-lhes a ideia que é melhor respondermos nós mesmos a uma pergunta do que pedir a alguém que nos dê a resposta. Mesmo que a nossa resposta esteja errada! Só nos concursos se obtêm as respostas "certas"... mas para que servem?
O abismo entre o conhecimento e a verdade é infinito. Os pais falam muito da verdade, mas raramente se dão ao trabalho de lidar com ela.
in O Big Sur e as Laranjas de Jerónimo Bosch, de Henry Miller
sexta-feira, 24 de maio de 2013
O meu tempo na (em) casa
Vivi nesta casa com os meus medos, frustrações, com a minha Angústias. Com ela procurei no meu baú as recordações tatuadas a sangue interior, que pulsou sem encontrar um orifício de saída. Quis identificação, distância, aconchego, solidão. Ambicionei trazer dentro de mim a mágoa de ser mulher, com todas as batalhas ainda não travadas daquela época.
O meu tempo na (em) casa foi um estender de laços fortes, quebráveis, bordados pelas mãos das irmãs encarceradas em sonhos, para lá das paredes brancas. Foram noites lindas, de ser outras, que ao cair a luz me devolvem àquela que conheço melhor.
O meu tempo na (em) casa foi um estender de laços fortes, quebráveis, bordados pelas mãos das irmãs encarceradas em sonhos, para lá das paredes brancas. Foram noites lindas, de ser outras, que ao cair a luz me devolvem àquela que conheço melhor.
terça-feira, 19 de março de 2013
Ao meu pai
sábado, 9 de março de 2013
A casa Alba
Por detrás destas grades, podemos ver a Angústias de namoro tímido e contido com o seu noivo, Pepe Romano, bem como a avidez dos olhares das suas irmãs Martírio, Madalena e Amélia, todas a sofrer o desejo castrado atiçado pela sua figura varonil. E lá está também a Adela, a mais jovem, irreverente e fogosa das mulheres da casa, um espelho invertido da sua mãe, Bernarda Alba, a única força transgressora capaz de a enfrentar. A Adela, consumindo-se no amor que vive com noivo da irmã, rachando o bastão do poder, entrando no canavial por ele.
Uma casa alba, na sua figura de linhas rectas, simétricas, fechadas, onde a pureza reside na limpeza do parecer, que outrora deu impossibilidade ao ser. Lorca, que tanto escreveu sobre este frágil embuste, sobre o viço silencioso das raparigas solteitas da Andaluzia, emparedado por tradições enraizadas na religião e costumes da terra, completa o quadro desta alvura: à frente da casa eleva-se uma jovem árvore solitária, raro legado de vida nestas paragens.
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