Estou numa casa em construção. Com temperaturas negativas e calor humano positivo. Uma casa que um dia será magnífica, graças ao idealismo em acção de dois homens que, apesar de não darem elogios, valem muito a pena.
Há pessoas que são monumentos antigos em ruínas, com fachadas desoladas e interiores tristes e sombrios. No entanto, se lhes dermos um momento da nossa atenção, podemos imaginar como seriam essas pessoas se, tal como as casas abandonadas, pudessem ser restauradas e os seus alicerces fortes e belos pormenores pudessem ser vistos. Conheço alguém assim, que é belo e gentil na sua essência, mas que precisa de se reconstruir. Talvez precise de ser amado para ter essa motivação. Ou talvez precise de amar e deixar-se amar para passar a prova de fogo. Poucos se lançam no abismo do amor... esse desconhecido, que tem de continuar a ser desconhecido e incerto, que tem de permanecer um risco, um mistério. Senão continuamos na nossa toca, sem conflito, sem nos movermos, no silêncio da nossa voz, a única permitida. O amor é o motor castrado do mundo. O verdadeiro movimento interior que transforma tudo.
Ontem, na aula de dança africana da Eva - essa força da natureza - a energia do amor estava no auge. A todos ela contagiou com a sua alegria e sensualidade. E eu dancei, dancei, cantei e celebrei o melhor de mim com todo o meu corpo em vibração. Foi um orgasmo libertador de todo o meu ser. Algo difícil de exprimir por palavras, algo que os tambores guardam.
À Eva, aos monumentos em ruínas e aos idealistas em acção, que na sua essência estão mais próximos e afinados do que aquilo que - à primeira vista - podemos ver...
sábado, 10 de janeiro de 2009
quinta-feira, 1 de janeiro de 2009
Desejo primeiro que ames...
Alguém, que conheço de Alma, enviou-me este belo poema de Victor Hugo, no qual revejo os meus desejos para todos e para mim:Desejo primeiro que ames,
e que amando, também sejas amado.
E que se não fores, sejas breve a esquecer
e que esquecendo, não guardes mágoa.
Desejo, pois, que não seja assim,
mas se for, saiba ser sem desesperar.
Desejo também que tenhas amigos,
que mesmo maus e inconsequentes,
sejam corajosos e fiéis,
e que pelo menos num deles
possas confiar sem duvidar.
E porque a vida é assim,
desejo ainda que tenhas inimigos.
nem muitos, nem poucos,
mas na medida exacta para que, algumas vezes,
te interpeles a respeito
das tuas próprias certezas.
E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo,
para que não te sintas demasiado seguro.
Desejo depois que sejas útil,
mas não insubstituível.
E que nos maus momentos,
quando não restar mais nada,
essa utilidade seja suficiente para te manteres em pé.
Desejo ainda que sejas tolerante,
não com os que erram pouco, porque isso é fácil,
mas com os que erram muito e irremediavelmente,
e que fazendo bom uso dessa tolerância,
sirvas de exemplo aos outros.
Desejo que tu, sendo jovem,
não amadureças depressa demais,
e que sendo maduro, não insistas em rejuvenescer
e que sendo velho, não te dediques ao desespero.
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e
é preciso deixar que eles escorram por entre nós.
Desejo por sinal que sejas triste,
não o ano inteiro, mas apenas um dia.
Mas que nesse dia descubras
que o riso diário é bom,
o riso habitual é insosso e o riso constante é insano.
Desejo que descubras,
com o máximo de urgência,
acima e a respeito de tudo, que existem oprimidos,
injustiçados e infelizes, e que estão à tua volta.
Desejo ainda que afagues um gato,
alimentes um cuco e ouças o João-de-barro
erguer triunfante o seu canto matinal
porque, assim, te sentirá bem por nada.
Desejo também que plantes uma semente,
por mais minúscula que seja,
e acompanhes o seu crescimento,
para que saibas de quantas
muitas vidas é feita uma árvore.
Desejo, outrossim, que tenhas dinheiro,
porque é preciso ser prático.
E que pelo menos uma vez por ano
coloques um pouco dele
à tua frente e digas `Isso é meu´,
só para que fique bem claro quem é o dono de quem.
Desejo também que nenhum dos teus afectos morra,
por ele e por ti,
mas que se morrer, possas chorar
sem te lamentares e sofrer sem te culpares.
Desejo por fim que tu, sendo homem,
tenhas uma boa mulher,
e que sendo mulher,
tenhas um bom homem
e que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes,
e quando estiverem exaustos e sorridentes,
ainda haja amor para recomeçar.
E se tudo isso acontecer,
não tenho mais nada para te desejar.
E que se não fores, sejas breve a esquecer
e que esquecendo, não guardes mágoa.
Desejo, pois, que não seja assim,
mas se for, saiba ser sem desesperar.
Desejo também que tenhas amigos,
que mesmo maus e inconsequentes,
sejam corajosos e fiéis,
e que pelo menos num deles
possas confiar sem duvidar.
E porque a vida é assim,
desejo ainda que tenhas inimigos.
nem muitos, nem poucos,
mas na medida exacta para que, algumas vezes,
te interpeles a respeito
das tuas próprias certezas.
E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo,
para que não te sintas demasiado seguro.
Desejo depois que sejas útil,
mas não insubstituível.
E que nos maus momentos,
quando não restar mais nada,
essa utilidade seja suficiente para te manteres em pé.
Desejo ainda que sejas tolerante,
não com os que erram pouco, porque isso é fácil,
mas com os que erram muito e irremediavelmente,
e que fazendo bom uso dessa tolerância,
sirvas de exemplo aos outros.
Desejo que tu, sendo jovem,
não amadureças depressa demais,
e que sendo maduro, não insistas em rejuvenescer
e que sendo velho, não te dediques ao desespero.
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e
é preciso deixar que eles escorram por entre nós.
Desejo por sinal que sejas triste,
não o ano inteiro, mas apenas um dia.
Mas que nesse dia descubras
que o riso diário é bom,
o riso habitual é insosso e o riso constante é insano.
Desejo que descubras,
com o máximo de urgência,
acima e a respeito de tudo, que existem oprimidos,
injustiçados e infelizes, e que estão à tua volta.
Desejo ainda que afagues um gato,
alimentes um cuco e ouças o João-de-barro
erguer triunfante o seu canto matinal
porque, assim, te sentirá bem por nada.
Desejo também que plantes uma semente,
por mais minúscula que seja,
e acompanhes o seu crescimento,
para que saibas de quantas
muitas vidas é feita uma árvore.
Desejo, outrossim, que tenhas dinheiro,
porque é preciso ser prático.
E que pelo menos uma vez por ano
coloques um pouco dele
à tua frente e digas `Isso é meu´,
só para que fique bem claro quem é o dono de quem.
Desejo também que nenhum dos teus afectos morra,
por ele e por ti,
mas que se morrer, possas chorar
sem te lamentares e sofrer sem te culpares.
Desejo por fim que tu, sendo homem,
tenhas uma boa mulher,
e que sendo mulher,
tenhas um bom homem
e que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes,
e quando estiverem exaustos e sorridentes,
ainda haja amor para recomeçar.
E se tudo isso acontecer,
não tenho mais nada para te desejar.
segunda-feira, 29 de dezembro de 2008
Il Polverone
São histórias para uma noite de calmaria. Seleccionei estas três, no meio de muitas mais - tão lindas e tão frágeis - que fizeram com que as minhas noites se prolongassem até aos dias:
A FOTOGRAFIA
Uma tarde, no comboio, um homem, de pé, sentiu uma mão tocar-lhe e reparou que um jovem soldado lhe oferecia o seu lugar, como se faz com os velhos. Aceitou, cheio de vergonha, por ser a primeira vez que lhe sucedia e, de olhos perdidos naquela noite que se escapava pelas janelas, de repente, sentiu-se desolado pela sua idade. Depois fechou-se em casa e a sua tristeza trespassava os muros, circulando pelas estradas. Era manhã, quando a carta chegou de uma cidade distante. Abre-a e encontra a fotografia de uma senhora anciã, completamente nua. Nenhum comentário ou assinatura. Mete os óculos para procurar nas velhas feições da mulher se, por acaso, a conhecia. Descobriu que se tratava do único grande amor da sua vida. E, conhecendo a grandeza da sua alma, de imediato percebeu a intenção da mensagem: a mulher, sabendo que ele vivia triste, não se envergonhava de lhe mostrar o próprio corpo, para o fazer perceber que não devia angustiar-se e que os sentimentos são mais fortes do que a carne.
A ESPERA
Estava tão apaixonado que se fechou em casa, sentado junto à porta, para poder abraçá-la assim que ela batesse para lhe vir confessar que também o amava. Mas ela não veio e ele envelheceu. Um dia alguém tocou, levemente à porta e ele, apavorado, fugiu, escondendo-se atrás do armário.
JUNTO AO FOGO
Decidiu abandonar as mulheres e, por longo tempo, de facto, viveu só. Passeava, olhava as árvores e frequentava o café sem voltar o rosto para qualquer mulher bela.
Mas um dia, uma jovem colocou-se a seu lado e disse-lhe que o amava. Durante muitos dias o homem recusou-a, até que a mulher deixou de vir ao café, desaparecendo sabe-se lá para onde.
Só agora, aquele tal, foi sacudido por tão grande amor que percorreu, a pé, toda a cidade até que parou a conversar com uma daquelas mulheres que vive junto às fogueiras, na periferia. E nem reparou que era a mesma rapariga que o amava.
in Il Polverone - Storie per una notte quieta, Tonino Guerra
A FOTOGRAFIA
Uma tarde, no comboio, um homem, de pé, sentiu uma mão tocar-lhe e reparou que um jovem soldado lhe oferecia o seu lugar, como se faz com os velhos. Aceitou, cheio de vergonha, por ser a primeira vez que lhe sucedia e, de olhos perdidos naquela noite que se escapava pelas janelas, de repente, sentiu-se desolado pela sua idade. Depois fechou-se em casa e a sua tristeza trespassava os muros, circulando pelas estradas. Era manhã, quando a carta chegou de uma cidade distante. Abre-a e encontra a fotografia de uma senhora anciã, completamente nua. Nenhum comentário ou assinatura. Mete os óculos para procurar nas velhas feições da mulher se, por acaso, a conhecia. Descobriu que se tratava do único grande amor da sua vida. E, conhecendo a grandeza da sua alma, de imediato percebeu a intenção da mensagem: a mulher, sabendo que ele vivia triste, não se envergonhava de lhe mostrar o próprio corpo, para o fazer perceber que não devia angustiar-se e que os sentimentos são mais fortes do que a carne.
A ESPERA
Estava tão apaixonado que se fechou em casa, sentado junto à porta, para poder abraçá-la assim que ela batesse para lhe vir confessar que também o amava. Mas ela não veio e ele envelheceu. Um dia alguém tocou, levemente à porta e ele, apavorado, fugiu, escondendo-se atrás do armário.
JUNTO AO FOGO
Decidiu abandonar as mulheres e, por longo tempo, de facto, viveu só. Passeava, olhava as árvores e frequentava o café sem voltar o rosto para qualquer mulher bela.
Mas um dia, uma jovem colocou-se a seu lado e disse-lhe que o amava. Durante muitos dias o homem recusou-a, até que a mulher deixou de vir ao café, desaparecendo sabe-se lá para onde.
Só agora, aquele tal, foi sacudido por tão grande amor que percorreu, a pé, toda a cidade até que parou a conversar com uma daquelas mulheres que vive junto às fogueiras, na periferia. E nem reparou que era a mesma rapariga que o amava.
in Il Polverone - Storie per una notte quieta, Tonino Guerra
sexta-feira, 26 de dezembro de 2008
Natal e Nostalgia

Passou o Natal. Passaram os dias de abundância, superficialidade e consumismo desenfreado. Não podemos estar verdadeiramente felizes se precisamos de tanto para viver. Não podemos estar a desenvolver o nosso lado mais nobre. Só prendas, só sucesso, só "subir na vida" através de carros novos, roupas novas, perfumes novos, paixões novas... o estilo americanizado e burguês.
As prendas que recebi e as comidas que comi só me trouxeram um prazer passageiro, como aquele que se tem com alguém que não se ama.
O grande momento deste Natal, para surpresa minha, foi jogar à sueca com o meu tio Jorge. Esse tio trouxe-me de volta a mesa da casa dos meus avós em Oliveira, onde, na noite de Natal, ouvíamos os nós das mãos a baterem agilmente sobre a madeira, a cada triunfo da jogada. Aquela casa ampla, simples, cheia de sol e videiras, com soalho que fazia abanar as louças da cristaleira à nossa passagem, com colchões de palha e cobertores pesados, mas que deixavam entrar o frio a cada movimento na cama.
Aquelas férias de verão na aldeia são inesquecíveis. Sinto-me feliz por ainda ter feito parte de um tempo onde as crianças podiam brincar livremente pelos campos atrás de borboletas e nadar em tanques de água esverdeada com girinos e sapos. Uma época em que não se obrigava as crianças a tomar banho todos os dias nem se usava amaciadores para o cabelo. Isso hoje seria chamado de "negligência ou falta de higiene". O meu avô chamava-lhe simplesmente "coisas de gente da cidade" ou "poupança de água."
Hoje uso cremes bem cheirosos, mudo mais vezes de roupa e já não corro nua pelos campos... Mas sinto falta de uma vida mais natural, mais ligada à terra, ao mar e às estrelas. Em criança todos os dias olhava as estrelas antes de dormir, da varanda do meu quarto. E esse ser essencial, hoje talvez chamado por uns de "selvagem", por outros de "hippie", continua a pulsar dentro de mim, continua a expressar-se nas férias, nas viagens todo o terreno que faço. Tenho saudades das cascatas brasileiras, dos andes equatorianos, do deserto mexicano. Mas as saudades mais antigas, as que estão por baixo da pele, no sangue, são as daquele tempo mágico. Porque o meu ser não vai de férias, existe desde sempre.
domingo, 21 de dezembro de 2008
A grande sereia
Quisera ter proferido outras palavras
ou esquecê-las...
encostando a minha solidão no teu ombro
eu fui naufraga na minha praia
afastada da minha casa de água
no fundo do oceano
E desde então a procura
Para voltar a ser muda
como os peixes
e dançar em ondas de fogo
...
Será que então me verias?
Virgínia Silva
ou esquecê-las...
encostando a minha solidão no teu ombro
eu fui naufraga na minha praia
afastada da minha casa de água
no fundo do oceano
E desde então a procura
Para voltar a ser muda
como os peixes
e dançar em ondas de fogo
...
Será que então me verias?
Virgínia Silva
sexta-feira, 5 de dezembro de 2008
Era uma vez

Era uma vez uma menina que escondia uma figueira nas suas raízes. Uma figueira cheia de vida e abundância.
Isso acontecia nas histórias maravilhosas...
Há meninas que têm uma imensa solidão e não têm raízes. As meninas que um dia foram retiradas às suas famílias, que apenas as depositaram neste mundo para se perderem em lugares sombrios onde se despe a alma e as carícias que suportam nunca são doces, nem cheiram a mar, ou aquecem por dentro, antes as deixam cair num abismo sem flores. Há meninos que foram arrancados às suas origens para aprenderem a morrer e a deixar morrer. Os meninos que nunca saberão amar uma mulher, porque nunca pediram licença para entrar no seu corpo transformado em refúgio de raiva e melancolia. Esses meninos que esqueceram a sua humanidade pelo caminho. Esses pequenos soldadinhos com chumbo nos corações.
Enquanto isso, os amantes por amar trocam pedacinhos de noite.
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