O Cartola é que tinha razão! E eu quero levar a vida com mais suavidade e menos drama. Nadando no fundo dos oceanos infinitos e voltando à superfície para olhar em redor... e há muito para onde olhar...
sexta-feira, 10 de abril de 2009
terça-feira, 7 de abril de 2009
Sermão do meu pai
A infância foi o melhor tempo da minha vida. Era feliz. Um dia vais perceber isso.
Hoje, 19 anos depois
segunda-feira, 6 de abril de 2009
Sermão do pai
Os olhos são a candeia do corpo. E se eles eram bons, é porque o corpo tinha luz. E se os olhos não eram limpos, é porque eles revelavam um corpo tenebroso.
André, no filme "Lavoura Arcaica" de Luíz Fernando Carvalho
sábado, 4 de abril de 2009
Um dom não merecido
O sentimento de se ser eleito está presente, por exemplo, em toda a relação amorosa. Porque o amor, por definição, é um dom não merecido; ser-se amado sem mérito é justamente a prova de um amor verdadeiro. Se uma mulher me diz: amo-te porque és inteligente, porque és honesto, porque me dás presentes, porque não andas no engate, porque lavas a louça, sinto-me decepcionado; este amor tem o ar de ser qualquer coisa de interessado. É muito mais bonito ouvir: estou louca por ti apesar de tu não seres nem inteligente nem sério, e embora sejas mentiroso, egoísta e safado.
Milan Kundera, in "A Lentidão"
quinta-feira, 2 de abril de 2009
O essencial
Já dizia Exupery que o essencial é invisível aos olhos.
Ser-se giro ou talentoso, ver todas as peças de teatro, ir a todos os eventos sociais, ler e discutir sobre arte... É importante, interessante, conveniente, torna a vida mais fácil e atractiva, mais ampla, mas não é essencial. Vivemos à volta da rotunda - por sinal muito apreciada no nosso pequeno país - distraídos com tudo e com nada. Queremos iludir o nosso querer, preencher o nosso desejo inconstante...
Uma vez, em Paraty, Brasil, estava numa praia deserta e lindíssima com águas muito brilhantes e a mata atlântica em redor. Decidi ir nadar sozinha, mesmo tendo sido avisada que ali era um local de correntes.
Despi-me e, quando estava já refrescada e em estado de puro êxtase e comunhão com a natureza... fui puxada para dentro de água. Precebi que era uma corrente, pois a sua força era muito maior que as minhas tentativas de nadar para a costa. Após um breve momento de pânico, seguiu-se um momento de quase calmaria e por momentos (talvez uns 10 segundos), debaixo daquele fundo do mar iluminado, pensei que iria morrer ali. Decidi acompanhar o movimento das águas. Ao mesmo tempo que o meu corpo cedia, a minha vida passava dentro de mim como um filme. Lembrei-me das pessoas que mais amava - talvez voltasse a ver o pai numa outra existência, imaginei a minha mãe a receber a notícia em Portugal e lembrei-me dos cúmplices, os meus queridos amigos e amores e todos os momentos maravilhosos que me proporcionaram.
Não morri naquela praia em Paraty, pois, suavemente, a corrente foi-se embora e eu nadei freneticamente para a praia. Mas aí tive a certeza do que era essencial e de como quero passar todos os momentos desta vida. E assim, abraço as palavras de Thoreaux:
I went to the woods because I wished to live deliberately, to front only the essential facts of life, and see if I could not learn what it had to teach, and not, when I came to die, discover that I had not lived.
Ser-se giro ou talentoso, ver todas as peças de teatro, ir a todos os eventos sociais, ler e discutir sobre arte... É importante, interessante, conveniente, torna a vida mais fácil e atractiva, mais ampla, mas não é essencial. Vivemos à volta da rotunda - por sinal muito apreciada no nosso pequeno país - distraídos com tudo e com nada. Queremos iludir o nosso querer, preencher o nosso desejo inconstante...
Uma vez, em Paraty, Brasil, estava numa praia deserta e lindíssima com águas muito brilhantes e a mata atlântica em redor. Decidi ir nadar sozinha, mesmo tendo sido avisada que ali era um local de correntes.
Despi-me e, quando estava já refrescada e em estado de puro êxtase e comunhão com a natureza... fui puxada para dentro de água. Precebi que era uma corrente, pois a sua força era muito maior que as minhas tentativas de nadar para a costa. Após um breve momento de pânico, seguiu-se um momento de quase calmaria e por momentos (talvez uns 10 segundos), debaixo daquele fundo do mar iluminado, pensei que iria morrer ali. Decidi acompanhar o movimento das águas. Ao mesmo tempo que o meu corpo cedia, a minha vida passava dentro de mim como um filme. Lembrei-me das pessoas que mais amava - talvez voltasse a ver o pai numa outra existência, imaginei a minha mãe a receber a notícia em Portugal e lembrei-me dos cúmplices, os meus queridos amigos e amores e todos os momentos maravilhosos que me proporcionaram.
Não morri naquela praia em Paraty, pois, suavemente, a corrente foi-se embora e eu nadei freneticamente para a praia. Mas aí tive a certeza do que era essencial e de como quero passar todos os momentos desta vida. E assim, abraço as palavras de Thoreaux:
I went to the woods because I wished to live deliberately, to front only the essential facts of life, and see if I could not learn what it had to teach, and not, when I came to die, discover that I had not lived.
domingo, 29 de março de 2009
Palavras no Escuro
"O verdadeiro revolucionário é movido por grandes sentimentos de amor."
Che Guevara
Volto ao Che, com quem adormecia e despertava em Coyoacán, Cidade do México. Durante um mês dormi na sala de Joselyn, uma das poucas mulheres mexicanas livres na sua condição, e a parede voltada para a minha cama, feita de sacos de areia, era ocupada por uma magnânima fotografia de Che. Era, sem dúvida, um homem belo e com um magnetismo e áurea tão intensa que aquela fotografia me acompanhava de verdade. Foi a partir de aí, e só de aí, muito por causa daquela fotografia, que me comecei a interessar mais pela sua vida e pelo seu impacto em todo o continente americano.
Che aparece em qualquer T-shirt vendida num mercado da América Latina e nos peitos de homens e mulheres um pouco por todo o mundo. Mas a maioria veste aquele homem sem nunca o ter pensado ou reflectido. Alguns sem saber muito bem quem era aquele barbudo de boné militar... tornou-se num mito, numa moda, num grito de Ipiranga, ou apenas numa necessidade ideológica, numa América "jodida" por todos os lados, com o seu sangue inscrito em cada cenário maravilhoso do seu solo. Não posso falar de Che ou da América de uma forma imparcial. Nem me interessa... a vida sem o fogo cá dentro não interessa.
Sim, era um guerrilheiro, talvez arrogante em determinada fase da sua vida, talvez com um sonho que se tornou numa obcessão egomaníaca... por muito que se diga sobre alguém, nunca o vamos saber completamente. Porque ninguém se deixa "saber" na totalidade, nem se conhece bem. Isso é dimínuir o ser humano e limitá-lo. O ser humano é muito mais complexo e extende-se por caminhos que exploramos a cada momento da nossa existência e das que virão.
No filme mais recente que saiu sobre ele, "Che - O Argentino", este surge como o verdadeiro homem de batalha, na selva, que matou e morreu pela sua causa. E há uma passagem no filme, no congresso americano, que me despertou. Che falava de política com sinceridade, expunha as suas ideias sem rodeios, apontando as "veias abertas da América Latina" - que os Estados Unidos têm ajudado a manter no mesmo estado de suicídio - sem pudor ou receio. Essa atitude falta-nos muito na política de hoje. O verdadeiro sentido da palavra desapareceu. O "todos" passou a ter objectivos muito mais mesquinhos. A distância entre o que se acredita e se pensa acreditar é muito maior e o ideal perde-se nessa estrada longínqua.
Falar de Che é também falar do mundo actual e na nossa constante vontade de contribuir para a sua mudança, para um bem estar maior. Continuo a acreditar que quanto melhor estiver, melhor estará o universo e vice-versa. E este vice-versa é importante.
Che foi um homem com o sonho de uma América unida, de um continente mestiço mais justo e humanizado para todos. Um tolo? Definitivamente. Mas o mundo sem tolos não se move e ele fez mover as calhas desta imensa roda com os seus "sentimentos de amor"...
... à fruição e discussão na próxima Quinta, dia 2 de Abril, 23h no Rosa Escura!
Che aparece em qualquer T-shirt vendida num mercado da América Latina e nos peitos de homens e mulheres um pouco por todo o mundo. Mas a maioria veste aquele homem sem nunca o ter pensado ou reflectido. Alguns sem saber muito bem quem era aquele barbudo de boné militar... tornou-se num mito, numa moda, num grito de Ipiranga, ou apenas numa necessidade ideológica, numa América "jodida" por todos os lados, com o seu sangue inscrito em cada cenário maravilhoso do seu solo. Não posso falar de Che ou da América de uma forma imparcial. Nem me interessa... a vida sem o fogo cá dentro não interessa.
Sim, era um guerrilheiro, talvez arrogante em determinada fase da sua vida, talvez com um sonho que se tornou numa obcessão egomaníaca... por muito que se diga sobre alguém, nunca o vamos saber completamente. Porque ninguém se deixa "saber" na totalidade, nem se conhece bem. Isso é dimínuir o ser humano e limitá-lo. O ser humano é muito mais complexo e extende-se por caminhos que exploramos a cada momento da nossa existência e das que virão.
No filme mais recente que saiu sobre ele, "Che - O Argentino", este surge como o verdadeiro homem de batalha, na selva, que matou e morreu pela sua causa. E há uma passagem no filme, no congresso americano, que me despertou. Che falava de política com sinceridade, expunha as suas ideias sem rodeios, apontando as "veias abertas da América Latina" - que os Estados Unidos têm ajudado a manter no mesmo estado de suicídio - sem pudor ou receio. Essa atitude falta-nos muito na política de hoje. O verdadeiro sentido da palavra desapareceu. O "todos" passou a ter objectivos muito mais mesquinhos. A distância entre o que se acredita e se pensa acreditar é muito maior e o ideal perde-se nessa estrada longínqua.
Falar de Che é também falar do mundo actual e na nossa constante vontade de contribuir para a sua mudança, para um bem estar maior. Continuo a acreditar que quanto melhor estiver, melhor estará o universo e vice-versa. E este vice-versa é importante.
Che foi um homem com o sonho de uma América unida, de um continente mestiço mais justo e humanizado para todos. Um tolo? Definitivamente. Mas o mundo sem tolos não se move e ele fez mover as calhas desta imensa roda com os seus "sentimentos de amor"...
... à fruição e discussão na próxima Quinta, dia 2 de Abril, 23h no Rosa Escura!
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