sábado, 8 de março de 2025

De onde viemos, o que somos

 ANJOS MULHERES – VI

As mulheres voam
como os anjos:
Com as suas asas feitas
de cristal de rocha da memória
Disponíveis
para voar
soltas...
Primeiro
lentamente: uma por uma
Depois,
iguais aos pássaros
fundas...
Nadando,
juntas
Secreta: a rasar o
chão
a rasar a fenda
da lua
no menstruo:
por entre a fenda das pernas
Às vezes é o aço
que se prende
na luz
A dobrarmos o espaço?
Bruxas:
pomos asas em vassouras
de vento
E voamos
Como as asas
lhe cresciam nas coxas
diziam dela:
que era um anjo do mar
Rondo alto,
postas em nudez de ombros
e pernas
perseguindo,
pelos espaços,
lunares
da menstruação
e corpo desavindo
Não somos violência
mas o voo
quando nadamos
de costas pelo vento
até à foz do tempo
no oceano denso
da nossa própria voz
Sabemos distinguir
a dormir
os anjos das rosas voadoras
pelo tacto?
Somos os anjos
do destino
com a alma
pelo avesso
do útero
Voamos a lua
menstruadas
Os homens gritam:
– são as bruxas
As mulheres pensam:
– são os anjos
As crianças dizem:
– são as fadas
Fadas?
filigrama cintilante
de asas volteando
no fundo da vagina
Nadamos?
De costas,
no espaço deste século
Mudar o rumo
e as pernas mais ao
fundo
portas por trás
dobradas pelos rins
Abrindo o ar
com o corpo num só golpe
Soltas,
viando
até chegar ao fim
Dizem-nos:
que nos limitemos ao espaço
Mas nós voamos
também
debaixo de água
Nós somos os anjos
deste tempo
Astronautas,
voando na memória
nas galáxias do vento...
Temos um pacto
com aquilo que
voa
– as aves
da poesia
– os anjos
do sexo
– o orgasmo
dos sonhos
Não há nada
que a nossa voz não abra
Nós somos as bruxas da palavra
 
MARIA TERESA HORTA

quinta-feira, 4 de janeiro de 2024

Au-delà de

Para lá do óbvio

Para lá da pele

Dos órgãos

Das artérias

Do sangue

Das unhas

Dentes

Ossos


Para lá dos fragmentos

Que somos

Há um filamento

Que sustém

A nossa escassa

existência


1 de Março de 2021

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Immortality

Há seres que transcendem as leis da natureza. Após duas semanas, é possível escrever sobre a morte sem a sua presença, pois esta já se foi, levando consigo um corpo em cinzas, falível, mortal como todos nós. No entanto, a sua foice não é suficientemente afiada para levar a arte consigo, pois esta permanecerá no mundo imortal, o mundo das ideias, da realização dos sonhos. David Bowie não era um ídolo único na minha adolescência. Era um, entre outros, que me ficou dessa época vibrante, que fui descobrindo melhor com a maturidade do meu gosto musical. Não é um ídolo que vejo partir, é o símbolo de alguém que soube de si tirar o melhor, uma estrela em mutação constante, tal como a vida.
Obrigada David Bowie, pelo teu legado.

domingo, 14 de setembro de 2014

Nem luxo, nem lixo

Cada vez sinto mais que a minha cidade natal se transfigurou. As noites do Porto estão inundadas de turistas, Erasmus e sobretudo... pessoas "bem". Estas já não se encontram apenas em Serralves ou na Casa da Música. Agora é de bom tom levar a família à feira do livro, aos novos restaurantes e a ver as bandas. A cultura é cada vez mais um bem consumível e descartável, como qualquer outro, daí a minha ambivalência. Por um lado gosto da vida nova que a "ciudad fantasma" (como a designou há anos uma amiga minha mexicana) adquiriu; por outro gostaria que entre os novos espíritos noturnos houvesse mais gente comum, que tanto vive na cidade da moda como na cinzenta. Gostaria de sentir algo mais autêntico no ar, menos tribos isoladas. Nem tão luxo, nem tão lixo...

domingo, 23 de março de 2014

Sommarlek


O filme não me sai da cabeça. Há muito que um filme não me saía da cabeça... deve ser a diferença entre um filme que se vê e o filme que nos vê. Foi o que aconteceu com "Um verão de amor" de Ingmar Bergman, que se tornou, da noite para um novo dia, um dos filmes da minha vida. Uma história bela, com personagens graciosos, desde a bailarina imaculada, à mulher de negro do bosque. A história, muito comum e simples - dois jovens que descobrem o amor num verão - transforma-se numa viagem à nostalgia e ao interior da dor, do silêncio imenso que nos envolve, da morte que nos acompanha.
Como em muitos filmes de Bergman, o esplendor da felicidade só atinge a sua beleza máxima quando o trágico acontece. A tristeza emerge dessas águas de amor dourado, aparentemente calmas, e ouve-se o grito premonitório da coruja. Foi este grito familiar que ressoou nas minhas memórias, transportando-me à época em que (sobre)vivia aos sorrisos do mundo que continuava, ainda que parado em mim.
Tal como a bailarina - tal como demasiados nós -  pomos a maquilhagem e entramos em cena. Agimos por um instinto qualquer de preservação da alma, acreditando que "o espectáculo tem de continuar", optando por dormir com as pestanas postiças.
Até que uma noite, na solidão fantasmagórica do teatro, alguém nos surge do outro lado da imagem:"Só quando nos libertamos de todos os muros podemos ver-nos ao espelho."


quinta-feira, 6 de março de 2014

Um poeta

Os poetas, do meu coração, ou os do meu (des)interesse, devem ser sempre louvados. Um mundo sem poetas é um mundo hostil e vazio, onde existimos sem viver.


DEDICATORIA

Más allá de donde
aún se esconde la vida, queda
un reino, queda cultivar
como un rey su agonía,
hacer florecer como un reino
la sucia flor de la agonía:
yo que todo lo prostituí, aún puedo
prostituir mi muerte y hacer

de mi cadáver el último poema.


Leopoldo María Panero (16/6/1948 - 5/3/2014)