IDANHA-A-VELHA
Após todos os vultos as mulheres
ficam sempre arrumando tudo
limpam o pó dos homens
abrem-lhes o caminho de volta
dão destino às coisas
encarreiram a vida
sentam-se rente aos sulcos da terra
prenhes de segredos
regam a paciência com o esperma que lhes cabe
aprendem com os gatos a desprezar em silêncio
velhas cúmplices da vida
tudo aprenderam para lá dos mortos
(de Notas de Campo)
III
Os anjos preocupam-se com a desordem do mundo
pressentem os fungos nos ossos dos que se deitam com frio
a densidade salina das lágrimas
o volume do medo das bestas na hora do abate
por vezes definem com astúcia a tensão do sangue
seguram a mão na pressão exacta controlam a voz com
aptidão exemplar
pai, gosto muito de ti
e a infância escorre pelo rosto da memória
entretidos os homens com os recados da inocência
(de Figuras de Apego)
Pôde ver por momentos na goela da terra o que
a terra faz nas entranhas
viu lá onde tudo se passa o nítido seio da terra
o grande silo do sangue
os rostos lésmicos dos mortos
o rasto factual da morte
esperou que algo de surpreendente acontecesse
talvez um verme gigante numa pápula vegetal
talvez um anjo finalmente vingador
uma luz
súbito a mão de deus cobriu-lhe os olhos ou era
o vidro limpo da rotina dos dias?
uma buzina lembrou-lhe que o mandavam avançar
(de Gravador de Chamadas)
segunda-feira, 30 de janeiro de 2012
terça-feira, 17 de maio de 2011
Poesia

A ética é mais forte que o amor.
A morte é mais forte que o amor.
A tristeza é poesia.
A poesia é uma ponte.
Poesia - o filme
sábado, 19 de março de 2011
Séraphine de Senlis

Estas pinturas são de Séraphine Louis.Esta pintora autodidacta do final do século XIX, da aldeia Senlis, em França, é um exemplo que o artista autêntico - e não muitos pretendentes a artistas da nossa geração (à rasca e não só!) cria sempre sempre. Com condições arcaicas ou modernas. Em precariedade ou em prosperidade. Com estudos universitários em Belas Artes ou sendo uma empregada doméstica, como ela era.
Ser artista é uma condição interior. É um não poder viver sem criar. É trabalho árduo que dá prazer e causa dor, um morrer e renascer contínuo.
Obrigada Séraphine, pela tua companhia numa noite mágica, com beleza, candura, poesia, feita de silêncios, olhares de chuva. Foi há uma semana, em casa.
segunda-feira, 14 de março de 2011
Testamento
Vou partir de
e o medo das alturas misturado comigo
faz-me tomar calmantes
e ter sonhos confusos
Se eu morrer
quero que a minha filha não se esqueça de mim
que alguém lhe cante mesmo com voz desafinada
e que lhe ofereçam fantasia mais que um horário certo
ou uma cama bem feita
Dêem-lhe amor e ver
dentro das coisas
sonhar com sóis azuis e céus brilhantes
em vez de lhe ensinarem contas de somar
e a descascar batatas
Preparem a minha filha
para a vida
se eu morrer de avião
e ficar despegada do meu corpo
e for átomo livre lá no céu
Que se lembre de mim
a minha filha
e mais tarde que diga à sua filha
que eu voei lá no céu
e fui contentamento deslumbrado
ao ver na sua casa as contas de somar erradas
e as batatas no saco esquecidas
e íntegras
ANA LUÍSA AMARAL, Minha Senhora de Quê
Foto: Beira-mar em San Sebastian, Novembro 2010
quinta-feira, 10 de março de 2011
A escolha é nossa
Um velho índio estava a falar com o seu neto e contava-lhe:
Sinto-me como se tivesse dois lobos lutando no meu coração.
Um é um lobo irritado, violento e vingativo.
O outro está cheio de amor e compaixão.
O neto perguntou:
Avô, diga-me, qual dos dois ganhará a luta no seu coração?
O avô respondeu:
Aquele que eu alimente.
Sinto-me como se tivesse dois lobos lutando no meu coração.
Um é um lobo irritado, violento e vingativo.
O outro está cheio de amor e compaixão.
O neto perguntou:
Avô, diga-me, qual dos dois ganhará a luta no seu coração?
O avô respondeu:
Aquele que eu alimente.
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