segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Uma feliz descoberta: a poesia de Paulo Pais

IDANHA-A-VELHA

Após todos os vultos as mulheres
ficam sempre arrumando tudo
limpam o pó dos homens
abrem-lhes o caminho de volta
dão destino às coisas
encarreiram a vida

sentam-se rente aos sulcos da terra
prenhes de segredos
regam a paciência com o esperma que lhes cabe
aprendem com os gatos a desprezar em silêncio

velhas cúmplices da vida
tudo aprenderam para lá dos mortos


(de Notas de Campo)

III

Os anjos preocupam-se com a desordem do mundo
pressentem os fungos nos ossos dos que se deitam com frio
a densidade salina das lágrimas
o volume do medo das bestas na hora do abate

por vezes definem com astúcia a tensão do sangue
seguram a mão na pressão exacta controlam a voz com
aptidão exemplar


pai, gosto muito de ti
e a infância escorre pelo rosto da memória
entretidos os homens com os recados da inocência


(de Figuras de Apego)

Pôde ver por momentos na goela da terra o que
a terra faz nas entranhas
viu lá onde tudo se passa o nítido seio da terra
o grande silo do sangue
os rostos lésmicos dos mortos
o rasto factual da morte

esperou que algo de surpreendente acontecesse
talvez um verme gigante numa pápula vegetal
talvez um anjo finalmente vingador
uma luz

súbito a mão de deus cobriu-lhe os olhos ou era
o vidro limpo da rotina dos dias?

uma buzina lembrou-lhe que o mandavam avançar


(de Gravador de Chamadas)

Belo até às lágrimas



"Dancem, dancem... senão estamos perdidos." - Pina Bausch

terça-feira, 17 de maio de 2011

Poesia



A ética é mais forte que o amor.
A morte é mais forte que o amor.
A tristeza é poesia.
A poesia é uma ponte.



Poesia - o filme

sábado, 19 de março de 2011

Séraphine de Senlis

Estas pinturas são de Séraphine Louis.
Esta pintora autodidacta do final do século XIX, da aldeia Senlis, em França, é um exemplo que o artista autêntico - e não muitos pretendentes a artistas da nossa geração (à rasca e não só!) cria sempre sempre. Com condições arcaicas ou modernas. Em precariedade ou em prosperidade. Com estudos universitários em Belas Artes ou sendo uma empregada doméstica, como ela era.
Ser artista é uma condição interior. É um não poder viver sem criar. É trabalho árduo que dá prazer e causa dor, um morrer e renascer contínuo.
Obrigada Séraphine, pela tua companhia numa noite mágica, com beleza, candura, poesia, feita de silêncios, olhares de chuva. Foi há uma semana, em casa.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Testamento


Vou partir de avião
e o medo das alt
uras misturado comigo
faz-me tomar calmantes

e ter sonhos confusos


Se eu morrer

quero que a minha filha não se esqueça de mim

que alguém lhe cante mesmo com voz desafinada

e que lhe ofereçam fantasia
mais que um horário certo
ou uma cama bem feita


Dêem-lhe amor e ver

dentro das coisas

sonhar com sóis azuis e céus brilhantes

em vez de lhe ensinarem contas de somar

e a descascar batatas


Preparem a minha filha

para a vida

se eu morrer de avião

e ficar despegada do meu corpo

e for átomo livre lá no céu


Que se lembre de mim

a minha filha

e mais tarde que diga à sua filha

que eu voei lá no céu

e fui contentamento deslumbrado

ao ver na sua casa as contas de somar erradas

e as batatas no saco esquecidas

e íntegras


ANA LUÍSA AMARAL,
Minha Senhora de Quê
Foto: Beira-mar em San Sebastian, Novembro 2010

quinta-feira, 10 de março de 2011

A escolha é nossa

Um velho índio estava a falar com o seu neto e contava-lhe:
Sinto-me como se tivesse dois lobos lutando no meu coração.
Um é um lobo irritado, violento e vingativo.
O outro está cheio de amor e compaixão.

O neto perguntou:
Avô, diga-me, qual dos dois ganhará a luta no seu coração?

O avô respondeu:
Aquele que eu alimente.