terça-feira, 15 de dezembro de 2009

O Ossuário da Família

"(...) era assim, Pedro, tinha corredores confusos a nossa casa, mas era assim que ele queria as coisas, ferir as mãos da família com pedras rústicas, raspar nosso sangue como se raspa uma rocha de calcário, mas alguma vez te ocorreu? alguma vez te passou pela cabeça, um instante que fosse, suspender o tampo do cesto de roupas do banheiro? alguma vez te ocorreu afundar as mãos precárias e trazer com cuidado cada peça ali jogada? era o pedaço de cada um que eu trazia nelas quando afundava as minhas mãos no cesto, ninguém ouviu melhor o grito de cada um, eu te asseguro, as coisas exasperadas da família deitadas no silêncio recatado das peças íntimas ali largadas (...)
Ninguém afundou mais as mãos ali, Pedro, ninguém sentiu mais as manchas de solidão, muitas delas abortadas com a graxa da imaginação, era preciso surpreender nosso ossuário quando a casa ressonava, deixar a cama, incursionar através dos corredores, ouvir em todas as portas as pulsações, os gemidos, e a volúpia mole dos nossos projetos de homícidio, ninguém ouviu melhor cada um em casa, Pedro, ninguém amou mais..."


André, in Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Acredito no impossível

- Por outras palavras, você acredita no impossível.

- Todos nós acreditamos, quer estejamos conscientes disso ou não. As nossas vidas não fariam sentido se não acreditássemos... basta pensar em algo como "Sonho de uma noite de verão": duendes e fadas saltitando pelo bosque, e que ao lançarem pó mágico nos olhos de um homem, ele fica logo apaixonado. É impossível, é verdade, mas isso não significa que não seja real, que não seja fiel à vida. No fim de contas, o amor é magia, não é? Ninguém sabe o que é, ninguém consegue explicá-lo. O pó mágico é uma explicação tão boa como qualquer outra, parece-me.(...)
O facto de uma história ser contada 'realisticamente' não a torna realista. E o facto de se contar uma história de um modo imaginário não a torna rebuscada. Aliás, as metáforas talvez sejam a melhor maneira de alcançar a verdade.

Paul Auster, entrevistado por Rebecca Prime sobre o filme Lulu on the bridge

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Inocência



Mas ele não estava a dizer a verdade?

A meia luz um olhar negro de sol
Entre o outrora do canto dos pássaros
E um prédio violador na época do nada

Por isso o criticaram?

Uma mãe recorrente
acaricia o ventre sem mão
o amanhã em lista de espera

Mas ele não tinha razão?

Dormir sem sonhos
Viver com vozes de partir
Assim a morte passa no cortejo

À minha porta...

Sim. Ele dizia a verdade.
Morreu com ela na boca.

Virgínia Silva



terça-feira, 27 de outubro de 2009

Da Felicidade

Quantas vezes a gente,em busca da ventura,
Procede tal e qual o avozinho infeliz:
Em vão,por toda parte,os óculos procura
Tendo-os na ponta do nariz!

Mário Quintana

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

XIII Noite da Chalupa

O teatro é a poesia que se ergue das tábuas e se faz humana.

García Lorca

Este Domingo, 25 de Outubro, 17H30 no Gato Vadio

Tema: Várias vozes exteriores, uma só voz interior
Sejam todos bem - vindos!

Abraço dos vadios anfitriões Artur&Virgínia

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Bellissimo!



Para ti pai, onde quer que estejas...