sábado, 22 de março de 2025

Undine e a Pequena Sereia

 

"Quando o sangue quente do Príncipe jorrar aos teus pés, voltarás a ter a tua cauda de peixe". A Pequena Sereia de Andersen não foi capaz de matar o seu amor e trocou a sua vida pela dele. Este conto, lido no original, tocou-me muito na infância. Tenho pena que as crianças de hoje só tenham os finais felizes cor-de-rosa da Disney, adulterados, sem a ambivalência que dá beleza e densidade à vida. Ontem vi este filme na RTP2, inspirado no mito de "Ondina", sobre o mesmo amor puro e abnegado de uma mulher que veio da água, como todas nós. Uma história simples, que contém tudo.

DIA MUNDIAL DA POESIA

 

Um dos meus preferidos:

Deve existir uma outra
noite
onde caibamos todos
inocentemente felizes
a comer laranjas
e a discutir os problemas de aromas de flores.
 
Francisco Duarte Mangas

quarta-feira, 19 de março de 2025

Dias do Meu Pai


Todos os dias são dias do meu pai: ele foi a luz que iluminou a minha infância e me orientou para a vida.

Ao meu pai dava desenhos, molas pintadas, colagens, postais... ele ainda fez parte de uma era onde os presentes do dia do pai não eram tão exigentes. 

Hoje dou-lhe o meu pensamento. 

Ao meu Pai, raiz do meu ser.

sábado, 8 de março de 2025

De onde viemos, o que somos

 ANJOS MULHERES – VI

As mulheres voam
como os anjos:
Com as suas asas feitas
de cristal de rocha da memória
Disponíveis
para voar
soltas...
Primeiro
lentamente: uma por uma
Depois,
iguais aos pássaros
fundas...
Nadando,
juntas
Secreta: a rasar o
chão
a rasar a fenda
da lua
no menstruo:
por entre a fenda das pernas
Às vezes é o aço
que se prende
na luz
A dobrarmos o espaço?
Bruxas:
pomos asas em vassouras
de vento
E voamos
Como as asas
lhe cresciam nas coxas
diziam dela:
que era um anjo do mar
Rondo alto,
postas em nudez de ombros
e pernas
perseguindo,
pelos espaços,
lunares
da menstruação
e corpo desavindo
Não somos violência
mas o voo
quando nadamos
de costas pelo vento
até à foz do tempo
no oceano denso
da nossa própria voz
Sabemos distinguir
a dormir
os anjos das rosas voadoras
pelo tacto?
Somos os anjos
do destino
com a alma
pelo avesso
do útero
Voamos a lua
menstruadas
Os homens gritam:
– são as bruxas
As mulheres pensam:
– são os anjos
As crianças dizem:
– são as fadas
Fadas?
filigrama cintilante
de asas volteando
no fundo da vagina
Nadamos?
De costas,
no espaço deste século
Mudar o rumo
e as pernas mais ao
fundo
portas por trás
dobradas pelos rins
Abrindo o ar
com o corpo num só golpe
Soltas,
viando
até chegar ao fim
Dizem-nos:
que nos limitemos ao espaço
Mas nós voamos
também
debaixo de água
Nós somos os anjos
deste tempo
Astronautas,
voando na memória
nas galáxias do vento...
Temos um pacto
com aquilo que
voa
– as aves
da poesia
– os anjos
do sexo
– o orgasmo
dos sonhos
Não há nada
que a nossa voz não abra
Nós somos as bruxas da palavra
 
MARIA TERESA HORTA

quinta-feira, 4 de janeiro de 2024

Au-delà de

Para lá do óbvio

Para lá da pele

Dos órgãos

Das artérias

Do sangue

Das unhas

Dentes

Ossos


Para lá dos fragmentos

Que somos

Há um filamento

Que sustém

A nossa escassa

existência


1 de Março de 2021

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Immortality

Há seres que transcendem as leis da natureza. Após duas semanas, é possível escrever sobre a morte sem a sua presença, pois esta já se foi, levando consigo um corpo em cinzas, falível, mortal como todos nós. No entanto, a sua foice não é suficientemente afiada para levar a arte consigo, pois esta permanecerá no mundo imortal, o mundo das ideias, da realização dos sonhos. David Bowie não era um ídolo único na minha adolescência. Era um, entre outros, que me ficou dessa época vibrante, que fui descobrindo melhor com a maturidade do meu gosto musical. Não é um ídolo que vejo partir, é o símbolo de alguém que soube de si tirar o melhor, uma estrela em mutação constante, tal como a vida.
Obrigada David Bowie, pelo teu legado.